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Shows em festival sobre seis álbuns de 1986 evidenciam como aquele ano foi fundamental para o rock brasileiro

Capas dos álbuns 'Cabeça dinossauro', 'Dois', 'Selvagem?', 'O concreto já rachou', 'Rádio pirata ao vivo' e 'Vivendo e não aprendendo', todos lançados em ...

Shows em festival sobre seis álbuns de 1986 evidenciam como aquele ano foi fundamental para o rock brasileiro
Shows em festival sobre seis álbuns de 1986 evidenciam como aquele ano foi fundamental para o rock brasileiro (Foto: Reprodução)

Capas dos álbuns 'Cabeça dinossauro', 'Dois', 'Selvagem?', 'O concreto já rachou', 'Rádio pirata ao vivo' e 'Vivendo e não aprendendo', todos lançados em 1986 Reproduções / Montagem g1 ♫ ANÁLISE ♬ O anúncio do festival C6 no Rock reitera que 1986 foi o ano que não terminou no universo do rock brasileiro irrompido com força no mercado musical, ao longo da década de 1980, a partir da explosão da banda Blitz no verão de 1982. Programado para 22 e 23 de agosto no Parque Ibirapuera, em São Paulo (SP0, o festival C6 no Rock traz no line-up nada menos do que seis shows dedicados a álbuns lançados naquele ano de 1986. E, verdade seja dita, todos os seis álbuns são fundamentais na história do rock brasileiro, seja pela relevância artística e/ou pela força comercial. São álbuns que, 40 anos depois, analisados sob a perspectiva do tempo, permanecem como emblemas das respectivas bandas. Pedrada punk atirada pelos Titãs após dois discos de repertório difuso, “Cabeça dinossauro” foi o álbum que deu norte e identidade ao grupo paulistano. Tanto que “Cabeça dinossauro” foi revisitado pela banda em turnê de 2012 e gerou uma segunda turnê comemorativa neste ano de 2026, o que torna o show dos Titãs – atualmente um trio formado por Branco Mello, Sérgio Brito e Tony Bellotto – o mais previsível do line-up do festival C6 no Rock, mas nem por isso menos importante. É que “Cabeça dinossauro” é um dos títulos mais essenciais da discografia do rock brasileiro em todos os tempos. Trata-se do álbum em que, em estado violência, os Titãs chacoalharam instituições sociais sagradas em músicas de títulos sucintos e autoexplicativos como “Família”, “Igreja” e “Polícia”. Não menos importante é “Selvagem?”, álbum que o grupo Paralamas do Sucesso revisitará em show que será feito na quarta edição do festival carioca Doce Maravilha – em apresentação agendada para 9 de agosto – antes de chegar ao C6 no Rock. Terceiro álbum do trio carioca, “Selvagem?” adensou o discurso dos Paralamas com questões sociais, como a dificuldade que desafia a cada dia a fé do povo pobre das comunidades, assunto da grande música do álbum, “Alagados”. Contudo, a grande marca deixada por “Selvagem?” foi a conexão do rock com a música brasileira e com o reggae. Isso pode até soar banal em 2026, mas em 1986 ainda havia um muro separando a MPB do rock. Os Paralamas do Sucesso ajudaram a quebrar esse muro com “Selvagem?”, com as bençãos de Gilberto Gil, ícone da MPB que, assim como Caetano Veloso, já vinha se conectando com o rock nos respectivos álbuns para não perder o bonde da história. Segundo álbum da Legião Urbana, “Dois” completa a tríade essencial de álbuns do rock brasileiro em 1986. Legionários sobreviventes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocarão no festival o repertório desse álbum em que a Legião Urbana surgiu menos punk e mais melancólica, com ecos do grupo britânico The Smiths (mas com personalidade) em canções como “Tempo perdido”. Embora produzido sob tensão e pressão para repetir o êxito comercial do antecessor “Legião Urbana” (1985), o álbum “Dois” se revelou um clássico instantâneo do rock brasileiro quando foi lançado com músicas como “Quase sem querer”, “Eduardo e Mônica” – o maior sucesso radiofônico do repertório – e “Índios”, consolidando a trajetória da Legião Urbana e já sinalizando o fervor messiânico com que o público cultuaria a banda brasiliense em movimento alicerçado a partir do quarto álbum do grupo, “As quatro estações” (1989). Apresentado como mini LP, o primeiro disco da Plebe Rude – outra banda vinda do universo punk de Brasília (DF), tal como a Legião Urbana – tem o merecido status de álbum. Por questões mercadológicas, “O concreto já rachou” chegou somente com sete músicas, suficientes para irradiar a indignação da Plebe contra o sistema. “O concreto já rachou” se revelou disco de alta voltagem política por trazer músicas como “Até quando esperar”, “Minha renda”, “Johnny vai à guerra” e “Proteção”, destaques de repertório contundente. Segundo álbum da banda paulistana Ira!, “Vivendo e não aprendendo” soa quase como um best of do grupo capitaneado pelo vocalista Nasi e o guitarrista Edgard Scandurra. Músicas então inéditas, como “Envelheço na cidade” e “Dias de luta”, conviviam no álbum com registros de músicas dos primórdios do Ira!, casos de “Pobre paulista” e “Gritos na multidão”. Contudo, o maior sucesso do álbum “Vivendo e não aprendendo” foi a canção “Flores em você”, veiculada ao longo de 1987 como tema de abertura da novela “O outro”, da TV Globo, com o arranjo de cordas que ecoava influências do som dos Beatles. Por fim, Paulo Ricardo reavivará no show do C6 no Rock músicas do segundo álbum do grupo RPM, “Rádio pirata ao vivo”, um dos maiores blockbusters do rock brasileiro por conta dos alardeados dois milhões de cópias vendidas nos primeiros meses do LP nas lojas. O quarteto tinha virado mania naquele ano de 1986, mas, a rigor, o disco ao vivo rebobinava algumas músicas do primeiro e (artisticamente) mais importante álbum do quarteto paulistano de tecnopop, “Revoluções por minuto” (1985), entre abordagens de sucessos do grupo Secos & Molhados (“Flores astrais”) e de Caetano Veloso (“London London”, o grande hit do disco ao lado da então inédita música “Alvorada voraz”). Avaliados em retrospecto, após 40 anos, os seis álbuns revisitados no festival C6 no Rock configuram um dos conjuntos mais consistentes de lançamentos do rock brasileiro. Nem seria exagero dizer que a fornada de 1986 é a mais importante do gênero no Brasil. E é por isso que, no universo do rock nativo, 1986 é o ano que não terminou...